Pessoas, sabores e identidade
Os chefs de Cabo Verde desempenham um papel fundamental na preservação e valorização da gastronomia nacional. Entre receitas tradicionais, ingredientes locais e novas técnicas culinárias, estes profissionais contribuem para reinventar os sabores do arquipélago e promover a identidade gastronómica cabo-verdiana dentro e fora das ilhas.
A cozinha cabo-verdiana é feita de encontros: o milho e o feijão que alimentaram gerações, o peixe fresco das comunidades piscatórias, os produtos cultivados nas ilhas e os temperos que transformam ingredientes simples em refeições cheias de personalidade.
Por detrás desta riqueza gastronómica estão famílias, cozinheiras, cozinheiros e profissionais que continuam a renovar a forma de preparar, apresentar e divulgar os pratos tradicionais. O Milho & Malagueta apresenta cinco percursos que merecem ser conhecidos.
Chefs de Cabo Verde: cinco percursos que merecem destaque
De profissionais experientes a novos talentos, a gastronomia cabo-verdiana reúne histórias de dedicação, criatividade e perseverança. Estes cinco nomes ilustram diferentes maneiras de preservar receitas, formar profissionais e levar os sabores do arquipélago além-fronteiras.
1. Chef Ália Santos: preservar os sabores e as memórias
Na cidade da Praia, a chef Ália Santos tornou-se uma referência na valorização da cozinha tradicional cabo-verdiana, nomeadamente através do seu percurso ligado ao Quintal da Música, espaço onde a gastronomia e a cultura se encontram.
Com uma longa experiência na restauração, tem defendido a importância de conservar os conhecimentos culinários transmitidos entre gerações. Em 2022, apresentou o livro Temperos da Chef Ália, reunindo receitas tradicionais e criações próprias, com o objetivo de partilhar saberes herdados da família.
O seu trabalho recorda-nos que uma receita não é apenas uma sequência de ingredientes. É também uma forma de guardar histórias, tradições e memórias familiares.
2. Chef Cláudia Neves: levar Cabo Verde além-fronteiras
A chef Cláudia Neves destaca-se pelo seu envolvimento na formação profissional e na promoção da gastronomia cabo-verdiana em iniciativas nacionais e internacionais.
Ligada à Escola de Hotelaria e Turismo de Cabo Verde, participou na representação gastronómica do país em Macau, em 2023, no âmbito de uma semana cultural dedicada à China e aos países de língua portuguesa. Entre as especialidades divulgadas estiveram a cachupa, o modje de São Nicolau, o feijão congo, a sopa de rolon e preparações com peixe seco.
Na primeira Semana Gastronómica de Cabo Verde, em 2025, voltou a salientar a relação entre gastronomia, história e identidade cultural. O seu percurso mostra como a formação e a partilha de conhecimentos podem reforçar a presença da cozinha nacional no mundo.
3. Chef Hélder Correia: de Santiago às cozinhas internacionais
Natural de João Varela, na Ribeira Grande de Santiago, Hélder Correia desenvolveu desde cedo uma ligação à culinária. Em 2013, ingressou na Escola de Hotelaria e Turismo de Cabo Verde, dando início a um percurso profissional que o levaria a diferentes experiências na restauração.
Depois de trabalhar em estabelecimentos da Praia, aprofundou conhecimentos de gastronomia chinesa numa experiência formativa na China, em 2019. Mais tarde, estabeleceu-se em França, onde continuou a desenvolver competências na cozinha, na pastelaria e em serviços gastronómicos para eventos.
A sua história representa uma realidade partilhada por muitos profissionais cabo-verdianos: aprender técnicas internacionais sem abandonar os sabores e as referências culturais do país de origem.
4. Chef Liliana Silva: criatividade e talento da nova geração
A renovação da gastronomia cabo-verdiana passa também pelos jovens profissionais que procuram afirmar-se através da criatividade e do domínio das técnicas culinárias.
Em junho de 2024, Liliana Silva conquistou o primeiro lugar no concurso Futuros Chefs e Barman da Gastronomia Cabo-Verdiana, realizado na ilha do Sal. A proposta apresentada combinava atum com puré de batata-doce e incluía uma sobremesa preparada com banana da ilha de Santiago.
A escolha dos ingredientes demonstrou como os produtos tradicionais podem integrar pratos com uma apresentação contemporânea. Concursos deste género são importantes para revelar talentos e incentivar a utilização de ingredientes nacionais.
5. Chef Neldinho Tavares: os sabores de Cabo Verde na diáspora
José Augusto Tavares Cabral, conhecido como Neldinho Tavares, é natural de Calheta de São Miguel, na ilha de Santiago. A paixão pela cozinha começou ainda na juventude, tendo posteriormente escolhido a formação na Escola de Hotelaria e Turismo de Cabo Verde.
Depois de experiências na restauração e de projetos próprios, mudou-se para França em 2023, onde continuou a trabalhar nas áreas da cozinha, confeitaria e catering.
Em 2025, anunciou a preparação do livro Prato di Nós Terra, concebido para reunir mais de cinquenta receitas com especial atenção à cozinha tradicional e a preparações menos conhecidas. O projeto evidencia a importância de documentar receitas antigas para que não desapareçam com a transformação dos hábitos alimentares.
Destaque editorial do Milho & Malagueta, não uma citação atribuída a qualquer chef.
Tradição e inovação na cozinha cabo-verdiana
A gastronomia de Cabo Verde construiu-se a partir dos recursos disponíveis nas diferentes ilhas e das influências culturais que marcaram a história do arquipélago. A cachupa continua a ocupar um lugar central nesta identidade, mas a diversidade culinária nacional vai muito além deste prato emblemático.

O xerém, o cuscuz de milho, o modje de São Nicolau, os pratos de peixe e as receitas familiares revelam uma cozinha profundamente ligada ao território. Hoje, muitos chefs reinterpretam estas especialidades com técnicas contemporâneas, novas texturas e apresentações cuidadas.
Uma cachupa pode ganhar uma apresentação mais elaborada; o peixe fresco pode ser acompanhado por purés preparados com produtos locais. Inovar não exige abandonar as origens. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para valorizar os ingredientes e despertar a curiosidade de novos públicos.
Os ingredientes locais são a alma da gastronomia
A qualidade da cozinha cabo-verdiana começa muito antes de os alimentos chegarem ao restaurante. Começa nos campos agrícolas, nas comunidades piscatórias, nos mercados e junto dos pequenos produtores que abastecem famílias e estabelecimentos.
Milho, feijão, mandioca, batata-doce, legumes, frutas e produtos do mar constituem uma parte essencial da alimentação tradicional. Cada ilha apresenta particularidades que enriquecem o património gastronómico do arquipélago.
Ao privilegiar ingredientes locais e sazonais, os chefs podem apoiar a economia das comunidades, incentivar o consumo de produtos nacionais e contribuir para práticas alimentares mais sustentáveis. Cozinhar com produtos da terra é também reconhecer o trabalho de quem os cultiva, pesca e comercializa.

Chefs cabo-verdianos: embaixadores da cultura
A presença de comunidades cabo-verdianas em diferentes países tem contribuído para a divulgação dos sabores tradicionais. Para muitos emigrantes, uma refeição típica é uma ligação à família, à infância e à terra de origem.
Ao mesmo tempo, restaurantes, festivais e eventos gastronómicos apresentam Cabo Verde a pessoas que nunca visitaram o arquipélago. Neste contexto, os chefs tornam-se também divulgadores da cultura e promotores dos produtos nacionais.
O futuro da gastronomia de Cabo Verde
O futuro da cozinha cabo-verdiana depende da formação, da valorização profissional, da preservação das receitas tradicionais e da capacidade de inovação. As escolas de hotelaria e turismo preparam novos profissionais, enquanto os concursos culinários revelam talentos e incentivam a criatividade.
Existe, contudo, outro espaço de aprendizagem igualmente importante: a cozinha familiar. É nas casas, nas comunidades e nos pequenos estabelecimentos tradicionais que muitos conhecimentos continuam a ser transmitidos de geração em geração.
Documentar técnicas antigas e incentivar o diálogo entre profissionais experientes e jovens cozinheiros são passos essenciais para proteger este património.
Muito mais do que cozinhar: contar a história de Cabo Verde
Os chefs de Cabo Verde apresentados neste artigo representam percursos distintos, mas partilham uma ligação profunda à gastronomia e à cultura do arquipélago. Uns dedicam-se à preservação de receitas familiares; outros apostam na formação, na criatividade, na internacionalização ou na recuperação de pratos antigos.
Valorizar os chefs cabo-verdianos é também valorizar os ingredientes, os produtores, as tradições e as comunidades que dão identidade à nossa cozinha.
Porque os sabores de Cabo Verde não pertencem apenas ao passado. Continuam vivos nas mãos de quem os prepara, transforma e partilha com o mundo.