Entrevista com Maria Júlia

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O meu conceito gastronómico é cozinhar com amor

Como começou a paixão por esta arte de cozinhar?

A minha paixão pela cozinha surgiu ainda na infância, em Chão de Tanque, no concelho de Santa Catarina, na ilha de Santiago. Chão de Tanque é um lugar muito conhecido que, na época colonial, produzia muitos produtos hortícolas. Quando era criança, antes de partir para a Holanda, gostava muito de cozinhar cachupa, pilar milho e cuidar da horta. A nossa vida era estável, pois o meu pai era emigrante na Holanda. Apesar de termos empregados em casa, eu sentia um enorme prazer em participar na preparação da nossa comida.

Sempre fui muito curiosa pela arte de cozinhar e acredito que a minha vocação pela culinária e gastronomia nasceu nessa fase. Gostava especialmente de cozinhar com cores — para mim, os pratos tinham de ser coloridos. Por exemplo, adorava a couve pela sua cor verde e, por isso, gostava de a acrescentar na cachupa. Lembro-me de uma vez em que o meu pai veio da Holanda passar uma temporada connosco. Como tínhamos horta, ele comprou carne de vaca e decidiu cozinhar. Na altura, eu tinha cerca de 10 anos. Ele cortou a carne em pedaços, colocou na panela e temperou com cominho e pimenta preta. Depois pediu-me para vigiar o cozinhado, mexendo sempre e tendo cuidado para não deixar queimar.

Eu chamava por ele para acrescentar água, mas ele dizia-me para deixar refogar bem primeiro. Só depois de a carne estar bem refogada é que acrescentou mandioca e, no final, a água. Foi nesse momento que percebi a importância do refogado. Mais tarde, quando fui estudar, compreendi melhor por que razão se refoga a carne e as especiarias. Ainda hoje consigo lembrar-me do cheiro daquele refogado — e foi aí que percebi que este era o meu caminho.

Quando começou a levar esta paixão a sério?

Antes de me formar em culinária, fui polícia na Holanda. No entanto, por amor, mudei-me para Cabo Verde. A minha estadia não durou muito tempo e acabei por regressar à Holanda. As saudades eram muitas e tive de escolher entre os dois países. Em Cabo Verde, não queria continuar a ser polícia, pois na Holanda essa profissão estava mais ligada ao status. Foi então que decidi seguir a culinária.

Regressei à Holanda e comecei a estudar culinária durante um ano, com o objetivo de conhecer melhor os ingredientes que via nos livros. Tudo parecia bonito, mas quando iniciei o curso percebi que não era tão fácil como imaginava. Acabei por fazer três anos de cozinha clássica numa escola de culinária, tornando-me independente, ou seja, apta a trabalhar sem supervisão direta de um chef.

No final, havia ainda uma especialização de mais um ano, mas percebi que não me interessava apenas a cozinha clássica, por ser mais comercial — embora também goste dessa vertente, pois permite ganhar dinheiro com a arte. No entanto, eu queria cozinhar de forma mais natural.

A cozinha clássica tem uma componente teórica e prática. Na parte teórica, estudam-se hábitos alimentares, doenças e surgem oportunidades de trabalhar em hospitais, escolas ou até seguir para a área de dietética. No entanto, senti que isso não correspondia à minha verdadeira paixão.

Falei com o meu professor, explicando que não me sentia vocacionada para essa vertente. Ele informou-me sobre outras escolas com abordagens diferentes. Fui conhecê-las e apaixonei-me pela culinária naturalista. Acabei por estudar mais dois anos nessa área e especializei-me, ficando com formação tanto em cozinha clássica como naturalista.

Mais tarde, associei estas duas vertentes para criar o programa “Cozinha com Maria Júlia”, transmitido na Televisão Cabo-verdiana (TCV). Com a experiência adquirida e o conheciment o dos produtos de Cabo Verde, de África e da Europa, consegui desenvolver uma abordagem que combina todas essas influências na minha forma de cozinhar.

Na cozinha de casa também é o chef?

Na cozinha da minha casa também sou chef, mas tenho uma empregada a quem dei formação e que está praticamente uma boa cozinheira. Em casa usamos produtos naturais para dar mais paladar à comida, em vez de utilizar, por exemplo, caldo de galinha ou outros condimentos artificiais. Os ingredientes que utilizamos dão à comida um aspeto colorido e agradável, porque os olhos também comem.

Mas o mais importante é não perder uma nutrição de qualidade, porque se a natureza nos deu essas cores nos alimentos é por alguma razão. Nesse sentido, devemos aproveitar o que vem da natureza, como legumes e frutas, para construir uma refeição saborosa e nutritiva.

Quais os seus pratos preferidos?

Os meus pratos preferidos em Cabo Verde são o caldo de peixe e a cachupa. Adoro caldo de peixe de uma maneira simples, só com banana verde e com um pouco de piripiri.

Podemos dar-lhe o estatuto de chef ou não?

Não sou chef nem pretendo ser chef de cozinha. Não vejo isso nos meus horizontes na gastronomia. O meu desafio nesta arte nunca foi ser chef, porque para isso existem dois caminhos.

Um deles é trabalhar na cozinha de um restaurante com classificação Michelin, onde é necessário ter uma formação avançada, liderar equipas e cumprir vários requisitos que fundamentam essa função. Por outro lado, há o caminho académico, através de escolas de hotelaria que preparam profissionais para se tornarem chefs.

Esse não foi o meu objetivo. Quando terminei o curso de cozinha clássica, fiz estágio e trabalhei durante um ano num restaurante Michelin de duas estrelas. Quando tive essa experiência, já tinha cerca de quarenta anos e três filhos. Percebi que não conseguia integrar-me nesse ambiente, porque a vida dessas pessoas era o restaurante. Para me dedicar da mesma forma, teria de abdicar de responsabilidades pessoais.

Fiquei triste por não seguir esse caminho, pois era um sonho de infância. No entanto, também percebi que não era a vida que queria — estar totalmente absorvida pelo trabalho. Acabei por desistir dessa meta e hoje sinto-me feliz a cozinhar de forma mais natural. Tenho formação em cozinha clássica e naturalista, com especialização em macrobiótica, e continuo a trocar experiências com colegas.

No fundo, ser chef é sentir-se bem a cozinhar e conseguir preparar uma refeição de qualidade para alguém.

Como define o seu conceito?

O meu conceito é cozinhar com amor, para que quem degusta a comida sinta que ela foi feita especialmente para si. Outro aspeto importante é sentir-me bem na cozinha, com paz, para transmitir isso às pessoas.

Defendo também que a comida deve ser o mais natural possível. Temos de estar próximos da natureza — é a única forma de nos sentirmos felizes. A culinária é uma arte milenar e nobre, que remonta aos tempos em que o ser humano descobriu o fogo não só para se aquecer, mas também para cozinhar.

Não fui eu que a descobri, mas sim os nossos antepassados. Na “Cozinha Ku Maria Júlia”, acredito que as pessoas devem manter-se ligadas à natureza. Não defendo extremos alimentares, como consumir apenas alimentos crus, pois o uso do fogo também faz parte da evolução da alimentação.

Por isso, defendo uma alimentação saudável, baseada em refeições naturais e não em produtos de laboratório. Sem os produtos da natureza, não é possível ter uma alimentação equilibrada.

Você tem um espírito empreendedor? Fale-me do seu projeto de restaurante.

Sempre tive o sonho de cozinhar para outras pessoas. Antes mesmo da minha formação, já cozinhava para familiares e amigos, que elogiavam a minha comida. Decidi então estudar para concretizar esse sonho.

Atualmente, estou a iniciar a construção do meu restaurante, chamado “Chez Maria Júlia”, localizado no Palmarejo Baixo. Será um espaço com um conceito misto, integrando cozinha clássica, naturalista e vegetariana, pensado para agradar a todos.

A cozinha cabo-verdiana terá um toque moderno, refletindo a minha experiência na Holanda e a influência da cozinha clássica francesa. Pretendo trabalhar com produtos biológicos, naturais e de época, promovendo os agricultores locais e valorizando a produção nacional.

O restaurante terá também 12 quartos e será um espaço pensado para acolher bem todos os visitantes, com uma decoração ligada à natureza e às artes.

O meu objetivo é promover os produtos de Cabo Verde com autenticidade. Quero transmitir aquilo em que acredito: a valorização do país, da cultura africana e da alimentação saudável.

Como está a decorrer a experiência na televisão?

Tem sido uma experiência fantástica. Muito positiva, apesar dos desafios, pois acredito que as dificuldades fazem parte do caminho para o sucesso.

O que acha da nossa gastronomia?

A gastronomia está ligada à cultura e não existe uma melhor do que outra — apenas diferentes. A gastronomia cabo-verdiana está no bom caminho, mas é necessário investir.

Com o tempo, a alimentação evolui. Produtos que antes não eram consumidos, como a beringela, hoje fazem parte da nossa cozinha. Isso mostra que a globalização também trouxe aspetos positivos.

Se queremos desenvolver o turismo, temos de investir na gastronomia, nos cozinheiros e na investigação, valorizando todas as ilhas.

Que critério utiliza na escolha de ingredientes?

Dou prioridade a produtos naturais, frescos, da época e adaptados ao clima. A natureza oferece tudo o que precisamos para uma alimentação saudável.

O que mais aprecia na gastronomia cabo-verdiana?

A simplicidade. Poucos ingredientes, naturais e cheios de sabor. Não é necessário exagerar nas especiarias. Um prato simples pode ser excelente, desde que respeite os ingredientes.

Em que chefs se inspira?

A minha maior inspiração é Cabo Verde e as experiências da minha infância. Também tenho influências da minha formação na Holanda e de vários profissionais da área, mas é a cultura cabo-verdiana que mais me inspira.

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